quarta-feira, 11 de março de 2009

A ética sob a ótica incongruente da política

Nesta augusta e insigne Casa os nossos destinos são decididos.
Professor Zecão, o erudito de Sorbonne
Risível é ouvir falar em ética no mundo da política. É um dito zombeteiro de alto nível e torna-se mais airoso ainda quando defrontamos alguns desta espécie que intentam levar esta bazófia a sério. Somos forçados, então, a assentir que a ética passa a ser vista sob outra ótica, outra perspectiva traçada de viés, ou inopinadamente nos tornamos mentalmente obliterados, de modo que o espírito avalie algo que está ao alcance dos olhos. O que nós vemos talvez não seja o que nós vemos.
A pobre da ética tem passado pelas mais terríveis crises, porquanto muitas e muitas atitudes sem ética têm sido tomadas em nome dela e cabe até afirmar que de modo geral nunca se sabe se é ela que perturba a mente dos filósofos ou se são os filósofos que não se entendem a respeito dela. A teia é tão complicada que a própria ética chega a perder o seu princípio ético, se considerarmos os inúmeros pontos de vista de filósofos e mais filósofos, através dos tempos. É como se cada um inventasse o seu tipo de ética, pelo que temos a ética de Platão, a de Aristóteles, a de Sêneca, a de Leibniz, a de Spinoza, a de Kant, a de Descartes, a de John Stuart Mill, a de Jean Marie Guyau, a de Bergson e sei lá a de quem mais, sem falar na nossa tão badalada e empavonada ética do PMDB, inflada substancialmente pelos escorregões do PT. Será que conseguirão se livrar desta raça pelos próximos trinta anos?
Mas, abstraindo-me desse imenso cipoal de éticas, o fato é que, segundo a Enciclopédia Abril, a coisa, com base numa visão existencialista, se resume no seguinte: “Sendo o homem – visto na sua concreção de existente – um ser em situação – sua ética jamais pode significar o esforço para adotar padrões universais de conduta, permanecendo uma moral estreitamente ligada às noções de risco e de responsabilidade, uma moral do relativo e não do absoluto, uma moral de ambigüidade, como mostra Simone Beauvoir.”.
Pois bem, se assim a ética do homem não significa esforço para adotar padrões de conduta universal e permanece uma moral ambígua, há de se imaginar que tipo de esforço ela faz para estabelecer padrões no campo também ambíguo da política, onde por sinal está ligada a todas as possibilidades de risco. Riscos que corremos nós e a própria ética também.
Basta lembrar que a política, definida como a arte de governar bem os povos (que povos, meu Deus, já foram bem governados no mundo?) é também vista como astúcia, ardil, artifício, esperteza, esbulho, isso que mais se verifica e se destaca entre os que fazem da política a sua profissão. Aliás, sem isso jamais permaneceriam como políticos.
Numa fase como a que o país vem atravessando, nos últimos dias, e na qual vemos aí o predomínio das astúcias, dos ardis, das mentiras, dos subterfúgios, das espertezas, das manobras mais escandalosas, pergunta-se: onde é que estava a ética de que tanto se passou a falar agora e para tanto criaram várias comissões parlamentares de inquérito, escabichando toda a galáxia política e não acharam nenhum norte neste “fim do mundo”?
Parece-nos que a ética não consegue estar dentro do comportamento dos políticos, durante as ações que vivem praticando, e é como se não tivesse nada a ver com a conduta humana desses que representam o povo, enquanto eles atuam. Também nunca se ouviu falar que se dessem noções de ética aos tipos que entram para a política. A maioria não sabe nem que diabo é isso. Além do mais, a burrice nesse sentido é tanta que há quem pretenda que haja ética por decreto. Fala-se já que vem aí um protetor pacote de ética, que patuscada inconseqüente! Vamos ver o que ocorre, quando abrirem esse pacote.
O fato é que a tal ética política, que deveria estar desde cedo com sua ótica voltada para os homens públicos, antecipando-se aos seus desmandos, só muito depois, quando todas as roubalheiras e as patifarias de qualquer natureza se difundem pelo país inteiro, é que ela se organiza em comissão e começa a botar a sua banca para auferir lucros de todos os matizes: de financeiros a eleitorais. E qual é por fim a ética do país. Pelo visto, estamos diante de uma ética altamente eclética ou talvez caquética.
Mimoseou-nos, a classe oposicionista com a série “Seria Trágico se não Fosse Cômico”, pompeando a tragédia brasileira, em capítulos eletrizantes, como agora vemos o reinado do Sarney e os Collors da vida.

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